Locomoção para o trabalho impulsiona negócios imobiliários

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Proximidade do escritório é fator determinante para moradores da cidade

Com a cabeça encostada na janela de um ônibus que cruza a cidade, é possível ouvir um podcast, ler um livro ou simplesmente dormir no tempo de locomoção para o trabalho. A imagem pode até parecer bucólica, mas as paradas lotadas e os engarrafamentos constantes compõem o cenário de filme de terror que parte da população tenta fugir a qualquer custo – mesmo que o gasto seja milionário. Não à toa, bairros com presença corporativa chamam tanta atenção pela demanda de moradia.

Esse desejo de morar perto do trabalho também impacta nos valores dos imóveis, impulsiona a mobilidade e transforma, de forma significativa, a paisagem urbana. Para ter ideia, o preço do metro quadrado de imóvel residencial no Itaim Bibi custa em torno de R$15.598, de acordo com o Índice FipeZAP+, publicado no último mês (veja quadro na próxima reportagem). Ainda assim, os 4.139 apartamentos lançados em 2021 deram ao distrito o título de maior número de lançamentos no último ano, segundo dados da Secovi-SP.

“O Itaim Bibi é um lugar com ruas comprimidas, calçadas estreitas e trânsito intenso. Não tem urbanização exemplar, mas os imóveis custam caro porque estão perto de lugares com opções de trabalho mais bem remuneradas”, aponta Renato Cymbalista, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP). “É fácil entender o motivo. ‘Já que eu não quero passar duas horas no transporte vou escolher morar a poucos passos do escritório’”, comenta.

Entre as diretrizes do Plano Diretor da Cidade de São Paulo, aprovado em 2014, está a distribuição do adensamento populacional de forma a aproveitar melhor as infraestruturas instaladas e equilibrar a relação entre oferta de empregos e moradia.

Apesar das normas oficiais serem recentes, Cymbalista explica que esse movimento sempre foi um dos pilares do município. “Diferentemente das cidades norte-americanas, São Paulo tem um modelo de urbanização mesclado, com moradias e modalidades comerciais convivendo no mesmo território”, descreve. Ele destaca que, mesmo nos centros antigos, onde a maior parte dos edifícios era de uso comercial, havia grande ocupação residencial. “E, antes da Faria Lima, era a Av. Paulista. A verticalização do Jardim Paulista também é fruto desse momento.”

O impacto na mobilidade urbana

Em grandes cidades, como São Paulo, a locomoção para o trabalho é um tema fundamental. Ela motiva discussões políticas, protagoniza decisões individuais e promove uma conjuntura que possibilita o surgimento de soluções para problemas de mobilidade. E esse problema acomete muitas pessoas. Uma pesquisa realizada pela Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec) mostrou que 44% dos moradores de São Paulo demoram mais de uma hora para chegar ao trabalho.

Por outro lado, uma auditoria realizada pela Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade) revelou que 81% da malha cicloviária paulistana está em bom estado geral de manutenção. Foi nesse contexto que a Tembici, empresa de aluguel de bicicletas compartilhadas, se apresentou como uma alternativa. Aproveitando-se dos quase 700 quilômetros de ciclofaixas da cidade, a companhia registra seus picos justamente às 8h e às 18h, horários tradicionais de início e término do expediente.

“Temos 260 estações na cidade, e apenas 7 delas representam 15% do nosso volume de viagens. São pontos localizados próximos a polos com grande número de escritórios, como o Largo da Batata, a Praça do Ciclista e o Shopping Center 3”, enumera Gabriel Reginato, diretor de negócios da Tembici. “Seguimos três critérios para decidir onde colocar as instalações: integração com outros meios de transporte, infraestrutura cicloviária e concentração de empregos e atividades na área”, justifica.

Reginato pontua que a locomoção para o trabalho é um fator determinante para a empresa, e que isso ficou ainda mais claro durante o auge da pandemia. “Tivemos uma queda em 2020 e 2021, mas, só neste ano, já registramos uma recuperação de 70%”, justifica. “A partir do momento em que temos mais bicicletas ocupando as ciclofaixas, maior é o interesse público em expandir o sistema.”

Fonte: Estadão

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