Tendências do uso da madeira na construção civil

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Se o material for proveniente de reflorestamento, a construção resulta na diminuição de itens industrializados, componentes químicos e geração de resíduos

No coração da Vila Madalena, um dos bairros mais populares da cidade de São Paulo, a startup Noah anunciou a construção de um condomínio residencial com seis casas de aproximadamente 400 m². O empreendimento chama a atenção pelo luxo e pela utilização da madeira na finalização e acabamentos, um material que vem se consolidando na construção civil mundo afora. 

“As novas tecnologias da madeira e o caráter sustentável têm fomentado esse movimento nacionalmente”, acredita Erich Kazuo Shigue, doutorando em arquitetura na Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do tema. “É um crescimento ancorado no que vem acontecendo fora do Brasil. Começou na Europa e expandiu para os EUA e Japão antes de chegar aqui”, contextualiza.

Em sua tese de mestrado publicada no final de 2018, Erich notou que dois motivos principais têm impulsionado a utilização da madeira na construção civil: a capacidade de absorção de CO2 e o desenvolvimento de novas tecnologias. “Como consequência disso, tem aumentado o número de empresas atuantes com técnicas construtivas em madeira, porém o cenário ainda é incipiente”, ele explica.

Desafios do uso da madeira na construção civil

O Brasil possui a 2ª maior área de florestas do mundo. com 59% do território coberto por florestas naturais e plantadas. No entanto, o uso da madeira como material construtivo ainda não recebe os mesmos holofotes que o concreto, por exemplo. Isso acontece por causa de diversos fatores, que vão do preconceito ao custo de produção e esbarram na falta de mão de obra qualificada.

“As pessoas questionam sobre os riscos do cupim e ficam com medo da madeira estragar ou pegar fogo”, exemplifica Erich, ao lembrar que já existem produtos específicos para aumentar a durabilidade contra agentes e microrganismos que atacam o material. “Além disso, tem produtos que diminuem a degradação e inibem o surgimento de chamas”, esclarece.

Na sua visão, porém, os maiores obstáculos residem na cadeia produtiva da madeira, que é bastante longa. “São várias etapas: quem planta, quem processa, quem vende, além de ser difícil encontrar arquitetos e engenheiros que projetam em madeira”, enumera. A falta de conhecimento, portanto, ainda pode ser um empecilho para a expansão mais eficiente da técnica.

Ele lembra que existem entidades atuando para mudar a percepção popular sobre o material e para fomentar a cadeia. Não à toa, os projetos de construção estão se popularizando nacionalmente. A expectativa é de que o aumento da escala contribua para a diminuição dos custos e especialização da mão de obra. Porque, se utilizada de forma adequada, pode trazer diversos benefícios para o meio ambiente. 

Vantagens do uso da madeira

O impacto ecológico do uso da madeira depende do modo como a árvore é cultivada. Caso ela seja proveniente de reflorestamento, por ser um material renovável, a construção resulta na diminuição de itens industrializados, componentes químicos e está ligada à ressocialização de carbono. Já se a madeira vier de desmatamento, o efeito é justamente o oposto da sustentabilidade. 

Além disso, a maioria das construções em madeira são pré-fabricadas. Isso faz com que as construções sejam mais rápidas, modeláveis e eficientes. Sem contar os efeitos positivos, como o isolamento térmico e acústico, que tornam a climatização mais natural. Esses benefícios, porém, dependem de como o material é aplicado. 

“A madeira é mais vulnerável a intempéries e suscetível à degradação, então o custo de manutenção pode ser maior”, relembra. “Uma alternativa é deixá-la menos exposta possível e protegê-la da exposição ao sol, para aumentar sua durabilidade e resistência”, orienta. Com esses cuidados, a tendência é que a madeira colabore para a criação de um ambiente mais ecológico e confortável. 

Preço do conforto

O projeto da startup Noah, batizado de Arvoredo, começa a ser construído em abril de 2023 e tem previsão de entrega no mesmo ano. O empreendimento conta com casas que vão de 390 a 466 m², que visam um público de alta renda. Peças pré-fabricadas de madeira engenheirada vão substituir o aço e o concreto. Além do conforto, o condomínio se apoia nos conceitos de eficiência e sustentabilidade como seus pilares.

As unidades residenciais terão isolamento acústico e térmico, reaproveitamento de águas pluviais, sistema de aquecimento solar, carregador para carros elétricos, metais criados para garantir menor uso de água e gerador para as áreas comuns e privativas. “Estamos em um processo de industrialização da construção civil”, afirma Nicolaos Theodorakis, fundador e CEO da Noah.

O empreendedor acredita que o isolamento social mudou a percepção do lar, o que colabora para que o público busque habitações que são mais do que um lugar de descanso, mas um ambiente com praticidade, contato com a natureza e bem-estar. “Unindo natureza e cidade, propomos ao morador a experiência de fazer parte de algo novo e tecnológico.” 

Ressignificação

Cada vez mais associada ao luxo, porém, o uso da madeira faz parte de um outro extremo da construção civil. “Até hoje, em locais da região norte do Brasil, é muito comum o uso da construção em madeira, mas de forma distinta. Nesses lugares, as casas de madeira são mais associadas à pobreza”, afirma Erich Kazuo Shigue. Bem distante dos projetos milionários, os barracos de madeira são presentes na habitação popular e carregam rótulos de preconceito.

De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) referente ao ano de 2019, o Brasil tinha 45,2 milhões de pessoas (21,6% da população total) residindo em 14,2 milhões de domicílios com algum tipo de inadequação.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) considera como inadequações a ausência de banheiro exclusivo, a existência de paredes externas com materiais não duráveis, o adensamento excessivo de moradores (mais de três moradores para cada dormitório), o ônus excessivo com aluguel (comprometendo mais de 30% da renda familiar) e a ausência de documento de propriedade do imóvel.

O que se vê no momento é um processo de ressignificação de um dos materiais mais abundantes do País. Ele vem com novas tecnologias, nova etiqueta e tecnologias que tornam o processo mais seguro, eficiente e confortável para os moradores. 

Fonte: Estadão

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